RUA SENHOR SILVA (ESCRITOR)
A propósito e-mail enviado por Vera Futscher relativo à demolição da Casa de Garret em baixo referido:
"A casa de Garrett poderia ter sido um pretexto. Não para o reduzir a um «equipamento» alimentado à custa de mundos e fundos, mas um pretexto para recentrar a memória colectiva, como que a recordar que o mundo não começou ontem. Um pretexto ainda para fazer descobrir ou redescobrir a sua obra, não apenas o seu nome ou o prestígio de monumento que automaticamente se lhe associa, e de nela rastrear a dimensão humana do seu Autor. A reconstituição minuciosa dos interiores poderia ter sido um momento de grande criatividade e cooperação interdisciplinar. Mas enfim, nada se criou, tudo se perdeu: nada ficou que pudesse ser transformado." http://www.casadegarrett.blogspot.com/ .
A questão de fundo é que não gostamos dos nossos melhores. Dos que nos acordam para aspectos da vida em que nunca teríamos pensado. Dos que nos levantam da nossa propensão natural para o troglodita. Ouvimo-los com ar blasé, como se também fôssemos capazes de descobrir as mesmas coisas sem ajuda. Que ninguém nos incomode com o pensamento de que seria bom assegurar que esta vida, generosa para nós, pode precisar de coisas como alimento, um tecto, o nosso agradecimento. Ou simplesmente ser lida. Fizemos isso com todos os que nos precederam: Camões, António José da Silva, Pessoa, o Miguéis. Não destruímos o Saramago porque ganhou um Nobel. Mas não há dia em que haja alguém que lhe não roa as canelas. E todos os dias nos esquecemos dos nossos poetas vivos. Dos prosadores com mais de 70 anos e que insistem em se manter entre nós para lá dos livros da escola. Ficamos calados à espera que morram. Que parem de nos esfregar na cara que não somos todos iguais no deslindar do mundo. Que há quem veja um bocadinho mais à frente na escuridão que nos envolve.
Depois de mortos, damos os seus nomes a ruas de subúrbio que mais tarde ou mais cedo farão parte da gigantesca metrópolis.
A casa do Garret vai abaixo? Normal, pelo que atrás foi dito. Pessoalmente preocupo-me mais em que o almoço do Cesariny lhe chegue quente a casa. Ou que nunca falte ao Herberto Hélder com que se abrigar. Mas tem a Vera razão quando refere o desprezo pela cultura. Acontece, que já o Eça (quase todo publicado postumamente) o dizia. E ainda estava vivo.
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